Artigo de Renata Lemes, a propósito da viagem a Salvador, em outubro, durante o evento Corpocidade, organizado pela UFBA.

O Passeio Público
Depois de olhar a cidade como apenas um caminhante, mais um entre tantos, o artista repassa sua vista. Lentes de aumento, olho, coração e todo o corpo se deixam então OLHAR o espaço. Rampa. Altura. Desníveis. Calçamento. Meios-fios. Círculos. Curvas que dão ao desvio. Monumentos. Abismos.
O espaço do passeio público localizado em Salvador, Teatro Vila Velha, vai se sugestionando ao corpo, o corpo pleno do artista que em sua imaginação constrói imagens, muitas, imagem-poema, disformes, imagens vocais. Imagens que compreende agora espaços inteiros tomando a dimensão de si. Ali, no passeio público, o cenário-cidade se auto-define, sem medo, ousado, gigante. O artista retira-se da condição de artista, embrenha-se nos percursos, nos fluxos, para não somente encontrar o outro mas ser, ele próprio, multidão. Não massa, mas extensões. Não mais um bloco de iguais feito tijolos, mas uma correntenza de múltiplos, de diferenças. O espaço sem a ação não há de ser nada, a idéia de agir sobre ele é que o tira da condição de espaço inoqüo e o potencializa em espacialidade, gerando no corpo também espacialidade. Corpo e espaço agora constituem-se “espacialidades engravidadas” em vias de vida.
É possível construir um corpo em arte a partir dessas espacialidades. É possível materializar a espacialidade como elemento de potência artística que gera sempre um novo corpo. “Espacialidade em Arte”. Não uma espacialidade pura, em si, mas esta espacialidade do confronto ou encontro entre Corpo/Espaço.
O passeio é público. A expressão lembra que quando as cidades modernas estavam em seus nascedouros, as andanças e deambulações criavam no passante, passeiador, flanêur, uma aura poética e convulsiva. A cidade surpreendia e assustava. A cidade era do caminhante e carregava a promessa de um mundo novo, desconhecido que se agigantava ante o olhar de quem se demorasse um pouco mais entre as ruelas abertas recentemente.
Dessa aura, o passeio público de Salvador reserva-nos quase uma nostalgia, mesmo para alguém que ali nunca esteve. Por outro lado, a memória ali guardada e envelhecida fala-nos de outra cidade, não da que ficou para trás, mas daquela que está por vir, daquela que veio, daquela que vive.
O passeio público é esse espaço, de uma esquina a outra, paradoxo. E quem por ali viu esquinas? Ou pontes e arranha-céus? Eu vi. O passeio público é aquele espaço primeiro, aquele de uma cidade sonhada pelo olho do artista. Uma cidade salvadorinha, ou que nome possamos dar. Uma micropotência da outra Salvador, que cumpriu a promessa de ser cosmopolita, que guardou suas memórias e se mostra ao turista. A Salvadorinha do passeio público descreve uma cartografia particular, insinua-se poema e cena no mapa do corpo do artista. O passeio público é esse espaço-potência pra quem se arriscar. De novo em desvios, abismos pontes e muitas pedras em meio ao caminho. O lugar se esconde. Vontade de revelá-lo. De revelá-lo em mim. Parece que está ao fundo, entre largas construções. Parece indiferente; poucos são os que, por ali, passeiam. Mas os lugares são feitos pelos olhos, pela retina des-programada. Por que um lugar tão lindo e vivo ante meus olhos anda assim, às vezes como coisa nenhuma, na cidade? Porque assim são os lugares, como as gentes, prenhes de relações e vidas. Prenhes também de desolação.
Volto logo em Salvador… desejo muitas vezes ser um pouco esse lugar. Desejo atravessar aqueles rumos do passeio público, descobri-los, dar voltas, entoar cantos, subir árvores, deitar nos bancos, olhar no olho dos pequenos monumentos resistentes, nem sei por que, e ser então “em Arte”, esse espaço tornado outro, tornado vivo.